João Tancredo



Cartas de Olga e Prestes que iam a leilão podem ter sido levadas do PCB

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Novo arquivo descoberto mostra chefe de gabinete de Filinto Muller com carta de Leocádia Prestes em 1937

Por Juliana Dal Piva – O Globo 

A existência de um lote de 319 cartas endereçadas ao dirigente do Partido Comunista Brasileiro Luís Carlos Prestes criou um mistério sobre quando e como essas cartas se perderam de seus destinários. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Anita Leocádia Prestes, filha do líder comunista, conta que identificou no lote duas cartas escritas por ela quando o pai já estava fora da prisão e diz que as correspondências foram levadas da sede do partido entre 1945 e 1947. Na última semana, o GLOBO investigou a possível participação de um homem de confiança de Filinto Muller, então chefe da Polícia Política, no desaparecimento das cartas de Prestes.

DO MÉXICO, 7 DE MAIO DE 1945

No dia sete de maio de 1945, a pequena Anita Leocádia, então com oito anos, escreveu ao pai Luís Carlos Prestes. “Querido papá, te mando este pequeno recuerdo. Besitos de Anita Leocádia”. Alfabetizada apenas em espanhol, ela marcou ao final a data: “México, VII-5-1945”. Os dois sequer se conheciam, já que ela nasceu em uma prisão nazista após a deportação de Olga Benário, mulher de Prestes. Essa e uma outra carta dela de 13 de janeiro de 1947 foram recebidas pelo líder do Partido Comunista Brasileiro depois de sua libertação em 18 de abril de 1945 - ambas integram o lote que iria a leilão na semana passada, mas que foi suspenso por decisão liminar do Tribunal de Justiça do Rio. 

A constatação veio depois que Anita olhou pela primeira vez ontem as cartas desse lote. Ela diz não ter dúvidas de que os documentos que foram encontrados este ano foram roubados da sede do PCB em dois saques que a legenda sofreu entre 1945 e 1947. O primeiro ataque ocorreu logo depois que Getulio Vargas deixou o governo, no fim do chamado Estado Novo, em outubro de 1945. Já o segundo, quando o partido foi proibido, em maio de 1947.   

— A polícia invadiu e depredou a sede do partido. Até máquinas de escrever foram destruídas, uma fogueira foi feita na porta da sede do partido - contou Anita ao GLOBO. — Depois teve uma segunda invasão (em 1947). Tem uma cartinha minha de criança, eu tinha uns 10 anos à época, de janeiro de 1947, então meu pai já estava solto há muito tempo. Essas cartinhas só podiam estar na sede do partido. Inclusive não tem carimbo da censura. 

Anita explica que o pai não tinha casa quando deixou a prisão e, por isso, guardava os documentos na sede do partido - um sobrado na rua da Glória, número 52. Ao sair do cárcere, ele levou cartas de Olga e de outros amigos e parentes que estavam com ele. Mas acabou perdendo os documentos com a perseguição. 

O mistério em torno das cartas de Olga e Prestes surgiu depois que o GLOBO revelou a existência dos documentos que iam a leilão há duas semanas. Eles foram comprados há quatro meses em uma feira na Praça XV, no Centro do Rio, por Carlos Otávio Gouvêa Faria, conhecido como Cacá, e teriam sido encontradas por um catador de lixo em Copacabana. O material teria lance mínimo de R$ 320 mil. 

Homem de confiança de Filinto Muller: Israel Souto  

De um novo lote de documentos descoberto por Cacá, pode surgir uma pista de quem guardou as cartas originais de Olga e Prestes durante décadas. Há 10 dias Cacá disse que foi chamado por conhecidos em um ferro-velho para buscar mais documentos que “poderiam interessá-lo”. Ao chegar no local, recebeu uma sacola de plástico preta com diversas pastas. Dentro inúmeros papéis com cabeçalhos da Delegacia de Ordem Política e Social assinados ou endereçados a Israel Souto. 

Em uma pasta de papel azul, a terceira página era uma carta de Leocádia Prestes, mãe do líder comunista, ao advogado Heráclito Sobral Pinto, que defendia Prestes, à época. Na correspondência, em outubro de 1937, ela diz que ficou nervosa ao saber da decretação do estado de guerra em 1º de outubro daquele ano. “Fui assaltada por graves preocupações receando uma séria agravação na vida já tão penosa do meu filho e também que v. excelência, que tantos sacrifícios tem feito pela defesa do meu filho”. Ela agradece os "inestimáveis serviços prestados por v.excelência, à causa de minha netinha" e pede a entrega de “um anel dos cabelos de minha netinha que tomo liberdade de pedir”. No final da pasta, uma foto de Filinto Muller assinada com a seguinte mensagem: “Ao Souto, com amizade.” Assinou F. Muller em 10 de outubro de 1935. 

No dia 7 de março de 1936, dois dias após a prisão de Prestes e Olga, o GLOBO e o Correio da Manhã noticiaram que o então ministro da Justiça, Vicente Rao, tinha visitado a chefatura de Polícia para cumprimentar Filinto Muller, então chefe de Polícia, pela operação que prendeu Prestes. Junto com ele neste momento estava Israel Souto, delegado especial e diretor geral do Departamento de Publicidade e Estatística e secretário da chefia. 

— Vim aqui especialmente para lhe trazer as felicitações do presidente da República pelo êxito sensacional das diligências — disse Rao, na ocasião. Meses depois, Souto seria chefe de gabinete de Muller e até substituiria o chefe interinamente. 

No mesmo arquivo, também descobre-se que Souto guardou fichas de integralistas e peças de inquéritos sobre diferentes pessoas. 

— Tudo indica que isso era do Israel. Tem a foto do Filinto oferecendo a ele esse troço todo — afirmou Cacá, ao mostrar o material ao GLOBO. Questionado se as cartas de Olga poderiam fazer parte do material, ele reiterou que os documentos foram encontrados em locais diferentes, mas disse que quando adquiriu as cartas dois cartões que censuravam filmes estavam em cima das cartas e foram comprados por outra pessoa, pouco antes dele.

  Em 1944, Souto foi diretor de Cinema e Teatro do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela censura. Ele morreu em 1962.

"ESSA CARTA (DA GRAVIDEZ) NÃO FOI DIVULGADA"

Desde que foi divulgada a existência de um lote de cartas que iria a leilão, Anita Leocádia Prestes dedicou-se a pesquisar sobre a procedência das cartas e até pensou que poderiam ter sido levadas do Arquivo Público do Estado do Rio (Aperj). Depois de verificar o material na última semana, ela conversou com O GLOBO e contou que constatou que o material do Aperj está integral. Anita disse que, agora, irá comunicar essas informações ao Judiciário e aguardará a decisão sobre a propriedade das cartas. 

Depois de olhar as cartas do leilão e as do arquivo o que você verificou? 

Num primeiro momento, quando me foi informado que existia esse lote de cartas, me veio à cabeça o Arquivo Público do Estado do Rio. Porque uma parte das cartas estava conosco, com a minha tia (Lygia Prestes) que eu doei para (Universidade de) São Carlos. E tinha outra parte, muitas são cópias, que estava no arquivo. Depois eu comecei a pensar e, não só isso, eu vi (no lote do leilão) um cartão meu de 1945, no período posterior à soltura do meu pai e também tem uma cartinha inclusive de 1947, aí eu me lembrei, isso era da sede do partido. 

Então esse material teria sido levado depois que seu pai foi solto? 

Meu pai junto com os outros presos políticos foi libertado no dia 18 de abril de 1945, com a anistia que Getúlio deu. Ele não tinha casa. Ficou hospedado na casa de amigos e a documentação que levou com ele, cartas, livros, botou na sede do Partido Comunista, que já estava legalizado. Rua da Glória, 52. Um sobrado velho que não existe mais. Ele tinha escritório ali, era secretário-geral do partido. Dia 29 de outubro de 1945 houve o golpe que derrubou Getúlio Vargas, só que Getúlio tomou um avião e foi tranquilo para São Borja. Quem foram os perseguidos e atacados? Os comunistas. Os dirigentes inclusive ficaram clandestinos e a polícia invadiu e depredou a sede do partido. Até máquinas de escrever foram destruídas, uma fogueira foi feita na porta da sede do partido. Pedaços de carta da minha vó surgiram dias depois e desapareceram as cartas, isso eu me lembro, tanto meu pai como a minha tia lamentavam que as cartas principalmente da minha avó tinham se perdido. Algumas cópias sobraram. Depois teve uma segunda invasão. Tem uma cartinha minha de criança, eu tinha 10 anos à época, de janeiro de 1947. Então meu pai já estava solto há muito tempo. Essa cartinha só podia estar na sede do partido. Inclusive não tem carimbo da censura. 

Quando foi o segundo saque? 

Foi em maio de 1947. No dia 7 de maio de 1947, o partido foi proibido e imediatamente a polícia invadiu a sede e depredou de novo e apreendeu novamente coisas. Na mesma sede, na rua da Glória. 

A senhora então acredita que a documentação foi levada nessas ocasiões? 

Está muito claro que essa documentação foi apreendida nessas duas invasões que houve na sede do partido. Só pode ter sido levada por um policial. O importante é saber que essa documentação foi apreendida no Comitê Central do Partido (Comunista) e me pertence porque sou a única herdeira. Sou a única filha de Olga e Prestes. 

E a carta de sua mãe sobre a gravidez? 

Essa carta não estava no arquivo. Eu tinha visto esse prontuário lá pelo ano 2000, então já não me lembrava direito. Tanto que num primeiro momento eu imaginei que pudesse ser uma das cartas que estavam lá. Mas não é. As sete cartas que estavam lá (no arquivo) continuam. 

Já tinha visto essa? 

Não tinha visto essa. Mas tem as outras que são parecidas, tratam da mesma temática. Essa carta não foi divulgada. Eu pensei que fosse uma das que eu já tinha visto porque a temática é parecida. O problema da gravidez, de ser extraditada. Essa problemática da carta, como eu já tinha visto há muito tempo, eu já não lembrava exatamente. 

Alguma dúvida de que as cartas são de sua família? 

Dúvida nenhuma. As letras estão lá muito claras. A grande maioria das cartas da minha mãe, não sei se você sabe desse detalhe, a Gestapo, a polícia nazista, não permitia que ela recebesse carta ou expedisse cartas em outro idioma que não fosse o alemão. Então, isso era um problema porque a minha família e o meu pai não sabiam alemão. Então a solidariedade internacional funcionou também. Minha tia com a minha avó estavam em Paris. Elas recebiam as cartas e mandavam traduzir. Tinha um grupo de amigos, companheiros, que traduziam para o francês e mandavam para o meu pai. Ele fazia a mesma coisa em caminho inverso. Os originais, minha tia Lygia guardou. 

Souto e a colaboração de Brasil e Argentina  

Entre as missões confiadas por Filinto Muller, Israel Souto recebeu a tarefa de acompanhar como os países vizinhos faziam a repressão a comunistas. Na biografia de Muller, do brasilianista R.S.Rose, está descrita essa função e como Souto esteve em Buenos Aires e Montevideo buscando essas informações.  No seu arquivo, permanecia inédito até agora um relatório no qual é descrito um projeto do governo argentino para que o Brasil se comprometesse a expulsar comunistas argentinos que tentassem ir para o Brasil. Desse modo, os vizinhos fariam o mesmo. O relatório de 13 de janeiro de 1938 submetia a Filinto Muller o acordo.

“Tenho a honra de submeter ao exame e apreciação de vossa excelência o incluso projeto de convenção de prevenção e repressão ao terrorismo, que nos é proposto pelo governo argentino e que nos foi encaminhado pela embaixada do Brasil em Buenos Aires”, descreve o documento. “Convém esclarecer que a expressão terrorismo, empregada pelo governo argentino, corresponde, na verdade, segundo informa nosso encarregado de negócios em Buenos Aires, a de comunismo no Brasil”, completa. Na pasta, não consta resposta de Muller. 

Mais tarde, em 1944, quando ele era diretor do DIP, Souto teve destaque nos jornais argentinos ao receber um convite dos Estudios San Miguel e da produtora Artistas Argentinos Asociados para participar de eventos de cinema em Buenos Aires. Em seu arquivo, estavam diversos recortes de jornal com fotos da visita em papeis com cabeçalho do DIP.